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Inês Aroso - Escritora

Sempre sonhei ser escritora... Aqui, sou!

Inês Aroso - Escritora

Sempre sonhei ser escritora... Aqui, sou!

Máquina do tempo

07.03.19 | Inês Aroso

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"Se as palavras me prenderam a ti, só as palavras me podem libertar", declaro com toda a convicção.

 

Faço um esforço. Volto atrás no tempo. Reaprendo a escrever. No computador? Nem pensar. Na máquina de escrever.

 

(ao fundo, parece-me ouvir o som da máquina de escrever que a minha avó Ana usava para passar os textos do meu avô António)

 

Mas escrever é um vício em mim, ele mesmo cheio de vícios. Devagar, começo a procurar ver as palavras, mais do que as sentir. 

 

Sentir, sempre o sentir. A mais, demais, sem mais nem menos, cada vez mais...

 

Faço um esforço e começo a ver para além das letras que se acomodam onde quero. Encontro uma cena. Um som. Um plano. Uma música. Um olhar. Uma voz. Um toque. Um diálogo. Um suspiro. Uma tatuagem (ou seriam duas?). 

 

Não te vejo. Vejo-te. És tu. Sempre tu. 

 

Quando escrevo, escrevo-te, escrevo-me. E perco-me, uma e outra vez. 

Xeque-Mate

05.03.19 | Inês Aroso

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Não acaba quando queremos.

Não acaba quando nos dizem.

Não acaba quando esperamos.

Não acaba quando devia acabar.

 

Demora uma e outra desilusão.

Demora uma e outra ofensa.

Demora um e outro humilhação.

Demora um outro gesto ingrato.

 

Um dia acontece, por fim!

Um dia percebes que acabou.

Um dia sais da ilha e vês a ilha.

Um dia entendes Saramago.

 

Chegaste ao fim da linha.

Do outro da linha não vês nada.

Por isso, tens medo, da incerteza.

Larga a carga que trazes contigo.

 

A travessia é leve e vale a pena.

Do outro lado da linha estás tu.

O teu verdadeiro eu. 

Celebra e grita: acabou!

Hemera, Aleteia e Pinóquio encontram-se num café...

04.03.19 | Inês Aroso

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A mentira não é a soma de todas as verdades? A verdade do que acontece, a verdade do que pensamos, a verdade do que sonhamos, a verdade do que idealizamos, a verdade que nos convém, a verdade que não podemos contar sem ferir quem gostamos... E depois há verdades que achamos serem mentiras. E mentiras que acreditamos serem verdades.

Não gosto de mentiras, convenientes e inconvenientes, mas acredito que são a força motriz da sociedade. Já pensaram se todos disséssemos a verdade a toda a hora? Os despedimentos, os divórcios, as pancadarias entre vizinhos e colegas, o caos (ainda maior) nas filas dos supermercados, o fim de amizades, as zangas nas famílias... Era o verdadeiro apocalipse!

Não tenho jeito para mentir, sou um bocadinho melhor a detetar mentiras (por vezes, é mera intuição), mas só o consigo porque já me mentiram muito... Nesta altura, já perdoei bastantes mentiras, a muito custo, mas algumas ainda não esqueci nem tenciono esquecer, porque faz parte do crescimento interior e da aprendizagem.

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Acredito que o ser humano irá ser sempre mentiroso. As pessoas são de carne e osso, não um bonequinho de madeira como o Pinóquio.

São assim, as mentiras: elas andam aí... tal como as bruxas, embora em maior quantidade e às vezes mal disfarçadas, por isso as encontramos mais vezes! 

(Des)concerto

02.03.19 | Inês Aroso

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Escuta o bater do coração que se despe e sangra, frágil, mas sem medos.

Ouve o suspiro de quem ama tão intensamente que não entende o descompasso do ser amado.

Sente a melodia do desamor que parece um favor, um alívio, porque o amor é um fardo.

Não há aplausos no final: só tu, o teu amor e a música que só tu ouves.

Silêncio.

"Be a man!", she says!

02.03.19 | Inês Aroso

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Admiro os homens lutadores, que se apaixonam por mulheres indomáveis. 

Admiro os homens inteligentes, que percebem as mulheres difíceis de entender.

Admiro os homens corajosos, que não procuram mulheres que os façam sentir superiores.

Admiro os homens exigentes, que não querem um refugo, mas uma companheira.

Admiro os homens honestos, que assumem quem são perante quem amam.

Admiro os homens que mais do que gostarem de mulheres, gostam das mulheres.

O contador de cerejas

01.03.19 | Inês Aroso

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Ela e ele. Ele e ela. Ele e ele. Ela e ela. Sem nomes. Com nomes. Com pseudónimos. Sem pseudónimos. Sem regras. A regra é o amor. A história de amor dele e dela. Dele e dele. Dela e dela.

Descobriram-se aos poucos. Descobriram-se rapidamente. Uma conversa improvável. Uma ida ao cinema. Um jantar. Uma tarde na esplanada. Uma madrugada a ver o mar. Um concerto de jazz no parque. Uma peça de teatro. Um passeio pela cidade. Umas horas num motel ao fim da tarde. Um filme em casa dele. Um almoço em casa dela. Não necessariamente por esta ordem. Não necessariamente por ordem alguma. A desordem dos corações é o que conta para esta história. A desordem é a ordem natural da paixão.

Nessa tarde, ele pediu-lhe um beijo. Ela disse-lhe que não. "Os beijos são como as cerejas", avisou-o. Ele riu-se: "São as palavras que são como as cerejas...". Mas ela beijou-o e ele percebeu que, afinal, ela tinha razão. Não basta um. Depois de um vem outro. E outro. Habituado a contar palavras, e não beijos, ele perdeu-se nas contas. Porque a dada altura não se contam os beijos. Não se contam as palavras. Não se contam as cerejas. 

Mas cada beijo também é uma palavra. Às vezes palavras soltas. Mas quando a magia acontece, formam-se frases. Criam-se textos. Em forma de poema ou em prosa. Não tendo cuidado, já há um livro a ser lido e descoberto, em cada página, em cada linha.

E, dessa vez, leram um livro, perceberam-lhe os cheiros, sentiram as suas texturas, saborearam as suas histórias e ouviram o virar das páginas e o fechar do livro. Era um livro simples. Sobre cerejas...

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