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Inês Aroso - Escritora

Sempre sonhei ser escritora... Aqui, sou!

Inês Aroso - Escritora

Sempre sonhei ser escritora... Aqui, sou!

Escondes-me no teu olhar?

06.04.19 | Inês Aroso

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Título: Cláudia Azevedo

Fotografia: Inga Freitas

Texto e olhar: Inês Aroso

 

Sara, 41 anos, cabelos castanhos, entra na sala quase vazia do café e escolhe o lugar do canto. Aquele local, miraculosamente esquecido pelos turistas que invadem a cidade, foi dos poucos que manteve a sua essência, entre o familiar e o decadente. É frequentado pelos velhinhos do costume, por algumas famílias do bairro, mas nada de modernices, nem de pontos no TripAdvisor ou indicações no Google Maps. Uma meia-de-leite continua a chamar-se uma meia-de-leite, uma torrada é simplesmente uma torrada e os queques (deliciosos por sinal) são só mesmo os de comer. Aguarda por Pedro, que ficou de ir rever um texto para entregarem ao editor.

 

As folhas amontoam-se, enquando Sara vai revendo o trabalho. Quando Pedro, 38 anos, cabelos pretos, entra e sorri, Sara deixa cair as folhas. Corada, tenta desculpar-se com a habitual falta de jeito para manter as coisas em cima da mesa. Não acha sensato dar a verdadeira explicação: a presença dele deixa-a sempre incapaz de pensar por alguns segundos. Fica ainda mais desorientada, ainda mais descoordenada, ainda mais sem palavras do que o habitual. Mas consegue recuperar (embora com algumas recaídas pelo meio) e lá acabam a revisão do texto.

 

Entretanto, o café já encheu, com as velhinhas que vão tomar o chá com os famosos queques, na última fornada da tarde. Resolvem pedir um para cada um e Sara vai mordiscando o bolo e perde-se em pensamentos. Gostava de não sentir o que sente. É uma mulher forte, não lhe agrada que um homem a enfraqueça. Que a baralhe. Que a faça perder o controle da situação. Que antecipe as acções dela. Que lhe leia os pensamentos no olhar. Que a conheça melhor do que ela mesma. Que a faça dizer o que não quer. Que a faça fazer o que não quer.

 

Ao despedirem-se, Pedro convida-a para ir a casa dele, que fica logo ao lado, para lhe emprestar uns livros. "Desde que não me assedies", avisa sorrindo. Ela, corada, finge amuar e responde: "Tens-te em grande conta. O único crime que posso cometer é roubar-te um livro". E seguem na calçada, com Sara concentrada em não cair nem tropeçar. À entrada do prédio, Sara finge que se esqueceu de um compromisso e diz que afinal não tem tempo. "Estás a mentir", diz Pedro. Sara garante-lhe que não. Ele cala-a com um beijo. Sobem de mãos encostadas...

 

Na sala, nem olham para os livros, é como se o armário estivesse vazio. Não há livros, não há porta-retratos, não há recordações pirosas, não há nada. Mas há um sofá onde se sentam em silêncio e os corpos chamam um pelo outro. Têm um medo tremendo de estragar a amizade. Mas ela despe-se, sem pensar muito. Arrepende-se, porque na verdade é tímida, e esconde-se atrás das cortinas. "Estão a ver-te do outro prédio", avisa-a Pedro. Ao que Sara responde, com uma gargalhada: "Antes eles do que tu...". E sorri, sem saber como travar aquele jogo de sedução que testa os limites de ambos. Sara ganha coragem ou perde o juízo (tudo é relativo) e pergunta-lhe: "Escondes-me no teu olhar?".

 

Epílogo: O resto da história é de Pedro e Sara. Ou será de Sofia e Rita? Ou será de Luís e Vasco? Ou será de mim e de ti? Ou será de ti e dele? Ou será de ti e dela? Escondam-se, percam-se e encontrem-se no olhar de quem amam e desejam. Mesmo que seja apenas num conto, num filme, numa música, numa dança, num sonho. A ficção é tão mais completa do que a realidade. Abracem-na.