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Inês Aroso - Escritora

Sempre sonhei ser escritora... Aqui, sou!

Inês Aroso - Escritora

Sempre sonhei ser escritora... Aqui, sou!

O contador de cerejas

01.03.19 | Inês Aroso

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Ela e ele. Ele e ela. Ele e ele. Ela e ela. Sem nomes. Com nomes. Com pseudónimos. Sem pseudónimos. Sem regras. A regra é o amor. A história de amor dele e dela. Dele e dele. Dela e dela.

Descobriram-se aos poucos. Descobriram-se rapidamente. Uma conversa improvável. Uma ida ao cinema. Um jantar. Uma tarde na esplanada. Uma madrugada a ver o mar. Um concerto de jazz no parque. Uma peça de teatro. Um passeio pela cidade. Umas horas num motel ao fim da tarde. Um filme em casa dele. Um almoço em casa dela. Não necessariamente por esta ordem. Não necessariamente por ordem alguma. A desordem dos corações é o que conta para esta história. A desordem é a ordem natural da paixão.

Nessa tarde, ele pediu-lhe um beijo. Ela disse-lhe que não. "Os beijos são como as cerejas", avisou-o. Ele riu-se: "São as palavras que são como as cerejas...". Mas ela beijou-o e ele percebeu que, afinal, ela tinha razão. Não basta um. Depois de um vem outro. E outro. Habituado a contar palavras, e não beijos, ele perdeu-se nas contas. Porque a dada altura não se contam os beijos. Não se contam as palavras. Não se contam as cerejas. 

Mas cada beijo também é uma palavra. Às vezes palavras soltas. Mas quando a magia acontece, formam-se frases. Criam-se textos. Em forma de poema ou em prosa. Não tendo cuidado, já há um livro a ser lido e descoberto, em cada página, em cada linha.

E, dessa vez, leram um livro, perceberam-lhe os cheiros, sentiram as suas texturas, saborearam as suas histórias e ouviram o virar das páginas e o fechar do livro. Era um livro simples. Sobre cerejas...