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Inês Aroso - Escritora

Sempre sonhei ser escritora... Aqui, sou!

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O copo meio cheio

28.02.21 | Inês Aroso

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Andreia tinha lido muitas teorias sobre o copo meio vazio ou meio cheio, numa série de metáforas que se tornaram lugares-comuns. E se havia coisa que ela fugia, não por arrogância, mas por teimosia, era dessas vulgarizações do pensamento, tão confortáveis para muitos, tão irritantes, para ela.

Quando na formação por Zoom (por onde podia ser em 2021?) perguntaram à turma se viam o copo meio vazio ou meio cheio, ela desligou a câmara e foi à varanda fumar. Ela tinha uma resposta, mas não queria  partilhá-la com o bando de desconhecidos com que frequentava mais um curso em que se inscrevera para aguentar o confinamento. 

Voltou passados cinco minutos e, tal como previra, o debate opunha os chamados otimistas aos ditos pessimistas. Resolveu intervir e lançar um pouco o caos: "Eu cá só vejo o copo...". O formador, notoriamente cansado, achou que poderia ter ali uma boa forma de ir tomar o seu café em paz e pediu-lhe para explicar aos colegas.

"Eu vejo o copo, porque é aquilo que nós somos, vazios, cheios ou a meio. A vida enche-nos de líquidos diferentes, uns alegres, outros tristes, outros banais, uns doces, outros amargos, outros insípidos, uns turvos, uns transparens, outros coloridos. Tal como a um copo, há quem nos leve pela mão, outras vezes, esquecem-se de nós, como aqueles que ficam lá no fundo de um armário. Há quem nos trate com cuidado e há quem nos deixe cair e partir, há quem nos tente refazer, pedaço por pedaço, há quem nos aceite assim, quebrados, mas também há quem só queira copos novos e perfeitos. Enfim, há um sem número de analogias que poderia fazer, mas a verdade é que, no limite, somos copos vazios, sem alma, sem sabor ou copos cheios, sem espaço para respirar e deixar entrar coisas novas, seja em que altura for da vida..."   

As janelinhas do Zoom mostravam olhos estranhamente atentos, o formador agradeceu a participação da Andreia e passou a mostrar um vídeo de um famoso guru americano na área da liderança. Entretanto, Andreia começou a ser inundada com mensagens. Eram alguns colegas da formação a comentarem o que ela tinha dito. Uma delas, Zélia, confessou sentir-se um copo esquecido, vazio, depois de muitos desgostos e desilusões, já Duarte, o mais atrevido do grupo, assumiu que era um co(r)po de espumante à procura de outros co(r)pos para brindar, enquanto Lucélia dizia sentir-se há anos um copo a transbordar e a que vida já pouco a poderia surpreender. 

"E tu, Andreia, que tipo de copo te sentes?", escreveu-lhe Duarte, em privado.

Ela respirou fundo e lá disse: "Eu sou um copo de uso quotidiano, já com algumas falhas e meio cheio".

"Posso levar uma boa garrafa e brindamos a isso?",  insinuou, Duarte.

Contrariada por achar piada a uma investida tão evidente, riu-se. 

Mais tarde, nessa noite, conversaram só os dois, encheram o copo um do outro, cada um no seu ecrã e decidiram, com alguma resistência por parte de Duarte, que não iam passar dali, do virtual.

"Tenho a marca do seu baton no meu copo", enviou-lhe ele na manhã seguinte.

Com um sorriso, Andreia rematou: "Não é meu, eu não uso baton".

Desde essa altura, encontram-se apenas no mundo virtual onde se conheceram, pois sabem que, na realidade, nunca poderiam estar lado a lado: um copo do quotidiano e um copo festivo nunca se misturam.

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